abe-se que as seitas se escondem nos recantos sombrios da sociedade, oferecendo promessas de iluminação e solidariedade aos mais vulneráveis. Essas promessas são certamente convincentes, mas por trás da fachada de unidade e propósito está uma realidade mais sinistra - uma mistura complexa de manipulação e controle psicológicos. Como esses cultos se formam? O que os torna tão cativantes? E é possível escapar deles, depois de entrar?
Em 2024, o Brasil ficou em choque com a morte da modelo Djidja Cardoso, de 32 anos, no Amazonas. O corpo da ex-sinhazinha do Boi Garantido, do famoso Festival de Parintins, foi encontrado com sinais de overdose de cetamina na casa em que vivia com a mãe, Cleusimar Cardoso, e o irmão, Ademar Cardoso, em Manaus. Mãe e filhos criaram a seita religiosa "Pai, Mãe, Vida". Mas o que se sabe desse culto?
Os cultos quase sempre se formam em torno de um líder carismático que possui habilidades persuasivas de comunicação e uma presença autorizada. Esse líder geralmente afirma ter conhecimento especial ou insights divinos que atraem seguidores que buscam orientação e propósito.
Os líderes de culto geralmente têm como alvo indivíduos que são emocionalmente vulneráveis ou estão em processo de experimentação de transições da vida (como perda pessoal, dificuldades financeiras ou isolamento social). Ao oferecer um sentimento de pertencimento e propósito, os líderes de culto podem rapidamente ganhar a confiança e a lealdade desses indivíduos.
Os cultos recrutam ativamente novos membros por vários meios, incluindo eventos públicos, redes sociais e convites pessoais. Os recrutadores geralmente têm como alvo indivíduos vulneráveis e que seriam mais facilmente vítimas de técnicas persuasivas.
Os cultos frequentemente apelam aos desejos de seus seguidores por uma vida melhor, prometendo um futuro utópico ou uma comunidade ideal se eles seguirem o líder. Essas promessas podem incluir a iluminação espiritual, a prosperidade material ou a harmonia social, que criam uma visão cativante que atrai e retém membros.
Para manter o controle, os cultos geralmente isolam membros de suas famílias, amigos e sociedade em geral. Esse isolamento ajuda a prevenir influências externas que possam desafiar as crenças e práticas da seita, o que significa que os membros se tornam cada vez mais dependentes do culto ao apoio e validação.
Os cultos geralmente usam técnicas de doutrinação sistemática para instilar suas crenças e valores nos membros. Essas técnicas podem incluir ensinamentos repetitivos e até reforço constante da autoridade do líder. Gradualmente, os pensamentos e comportamentos dos membros são reformulados para se alinhar com a ideologia do culto.
A quantidade de informações disponíveis em um culto é estritamente controlada para que os membros não sejam expostos a perspectivas externas. A mídia é frequentemente censurada e o acesso à internet pode ser totalmente restrito, tudo como uma maneira de não incentivar o pensamento crítico e garantir que os membros permaneçam leais e inquestionáveis.
As estruturas sociais totalitárias são frequentemente a norma nos cultos, e a autoridade do líder é tipicamente estabelecida como absoluta e inquestionável. A obediência é esperada, e consequências graves são frequentemente transmitidas àqueles que desafiam a liderança ou tentam deixar o culto.
Os cultos tendem a promover uma doutrina exclusiva que rejeite todos os outros sistemas de crenças e afirma honrar a verdade última. Essa exclusividade promove uma mentalidade "Nós x eles", que justifica o isolamento do culto da sociedade convencional.
Outra característica da maioria dos cultos é como eles frequentemente exploram os membros financeiramente, exigindo contribuições monetárias substanciais ou trabalho (mão-de-obra) não paga. Essa dependência financeira pode prender os membros economicamente e dificultar sua saída.
Os cultos geralmente têm textos ou ensinamentos sagrados considerados infalíveis e centrais para as crenças do grupo. Sem surpresa, esses textos geralmente são de autoria ou interpretados pelo líder, que simplesmente cimentam sua autoridade e controlam ainda mais os seguidores.
Regras rigorosas são frequentemente a força vital dos cultos, que podem incluir códigos de vestuário, restrições alimentares e regras de interação social. Esse controle geralmente se estende também a relacionamentos pessoais e pode até ditar com quem os membros podem se casar ou se associar.
Os cultos tendem a promover o pensamento do grupo, onde as opiniões individuais não são incentivadas e os membros devem estar em conformidade com a ideologia e decisões gerais do grupo. Essa doutrinação desencoraja a individualidade e o pensamento independente.
Muitos cultos incorporam crenças apocalípticas em seus ensinamentos, prevendo eventos catastróficos iminentes ou o fim do mundo. Essas profecias criam um senso de urgência e medo para que os membros sejam motivados a permanecerem leais e obedientes.
Rituais e cerimônias entrelaçam a vida em um culto, pois essas crenças reforçam e criam um senso de comunidade. Essas práticas podem variar de rotinas diárias a cerimônias elaboradas, todas as quais servem para unir membros e reforçar a ideologia do grupo.
Os cultos geralmente manipulam os membros através do medo e da culpa usando ameaças de punição ou condenação espiritual para fazer cumprir a conformidade. A culpa é frequentemente usada para controlar o comportamento, e os membros se sentem responsáveis pelo sucesso ou fracasso do grupo.
Os cultos geralmente criam uma nova identidade para os membros, incluindo novos nomes, papéis e personas. Essa reidentificação ajuda a cortar os laços com suas vidas individuais passadas e reforça sua integração no culto.
Os cultos modernos geralmente usam a tecnologia, como redes sociais e plataformas online para recrutar e controlar membros. Essas ferramentas permitem alcance mais amplo e disseminação mais eficiente da sua mensagem.
Os cultos tendem a manipular a percepção da realidade dos membros distorcendo fatos e criando uma visão de mundo alternativa. De fato, sabe-se que os cultos distorcem a História e criam teorias da conspiração para que a verdade possa ser dobrada para combinar com a ideologia do líder do culto.
Os cultos geralmente enfatizam o sigilo, tanto dentro do grupo quanto em interações com pessoas de fora. Isso não apenas cria um ar de mistério e exclusividade que mantém os membros existentes presos, mas também impede as críticas do mundo exterior.
Exemplos históricos de seitas incluem o Templo dos Povos liderado por Jim Jones, que terminou no trágico massacre de Jonestown (foto), e a Família Manson, comandada por Charles Manson e conhecida pelos assassinatos de Tate-Labianca. Esses exemplos ilustram as consequências extremas da dinâmica e da liderança do culto.
Em 2024, o Brasil ficou em choque com a morte da modelo Djidja Cardoso, de 32 anos, no Amazonas. O corpo da ex-sinhazinha do Boi Garantido, do famoso Festival de Parintins, foi encontrado com sinais de overdose de cetamina na casa em que vivia com a mãe, Cleusimar Cardoso, e o irmão, Ademar Cardoso, em Manaus. Considerada uma celebridade na região Norte, Djidja morreu em 28 de maio por depressão cardiorrespiratória decorrente das torturas — registradas, inclusive, em vídeos feitos pela própria agressora, de acordo com a Polícia Civil. Mãe e filhos criaram a seita religiosa "Pai, Mãe, Vida". Mas o que se sabe desse culto misterioso?
Segundo O Globo, a seita incentivava o uso indiscriminado de cetamina, substância que provoca efeitos alucinógenos. O grupo expandiu o culto à rede de salões de beleza da família, Belle Femme, onde, com a ajuda de funcionários, compravam a droga clandestinamente numa clínica veterinária e obrigavam seguidores a usarem. Os suspeitos de participação no esquema foram presos. Eles são acusados de crimes, como charlatanismo, curandeirismo, sequestro e cárcere privado, constrangimento ilegal, tráfico de drogas, tortura, colocar em perigo as vidas de membros, exercício ilegal da Medicina, entre outros. O irmão de Djidja Cardoso é investigado ainda por e*tupro de vulnerável e aborto provocado sem consentimento.
Até o delegado Cícero Túlio, encarregado pelo caso, ficou surpreendido quando ele e sua equipe encontraram um cenário de terror na casa: odor de podre forte, sujeira e centenas de seringas. No corpo de Djidja, havia uma série de feridas causadas pelas aplicações. "Tenho 13 anos como delegado e posso dizer que é a primeira vez que me deparo com uma situação como essa. É assustador. A investigação leva a conclusões tenebrosas. É tudo muito macabro e impactante", afirmou.
Mas o que você deve fazer se suspeitar que pode estar fazendo parte de um culto? Existem ações que você pode tomar para sair? O primeiro passo para sair de um culto é reconhecer que você está em um. Isso pode ser desafiador devido à quantidade de doutrinação e manipulação que tende a ocorrer, mas o reconhecimento da natureza controladora, isolada e exploradora do grupo é crucial.
Ganhar conhecimento sobre cultos e seus métodos de controle é um passo importante para evitar ou escapar de um culto. Ao entender as táticas psicológicas empregadas por cultos, as pessoas podem ver através da manipulação e encontrar a força para sair.
Outro passo para escapar da seita é chegar a amigos, familiares ou profissionais que estão fora do culto. Esses indivíduos podem oferecer apoio emocional e até conselhos práticos. Se possível, reconecte-se com aqueles que expressaram preocupação com a potencial atividade de culto no passado.
Crie um plano de saída detalhado, considerando fatores como para onde você irá, como se apoiará e em quem pode confiar. Ter uma estratégia clara pode reduzir o medo e a incerteza de sair, tornando o processo mais gerenciável.
Se você não conseguir deixar o culto de forma abrupta, pode tentar se desvincular gradualmente das suas atividades e reduzir o contato com seus membros. Faltar reuniões, não participar de rituais ou limitar conversas com outros membros são algumas dicas.
Depois de sair, é imperativo que você estabeleça limites firmes para se proteger de ser atraído de volta ao culto. Isso pode envolver a alteração de suas informações de contato, evitando ex-membros e ficar longe de locais associados à seita.
Os cultos geralmente retiram as identidades pessoais de seus membros, por isso é importante redescobrir quem você é fora do grupo. Envolva-se em atividades que você gosta, reconecte-se com interesses pessoais e trabalhe para reconstruir sua autoestima e independência.
Se o culto estiver envolvido em atividades ilegais ou se você teme sua segurança, não deixe de procurar aconselhamento jurídico. Advogados e outros profissionais ligados ao Direito podem fornecer proteção e ajudá-lo a abordar quaisquer preocupações legais relacionadas à sua saída do culto.
Junte-se a grupos de apoio a ex-membros do culto. Esses grupos oferecem um senso de comunidade e compreensão de outras pessoas que experimentaram situações semelhantes. Compartilhar sua história e ouvir as experiências de outras pessoas pode ser terapêutico e empoderador. E lembre-se: você não está sozinho.
Fontes: (Psychology Today) (The New Yorker) (Study.com) (Discover Magazine) (Verywell Mind)

